quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Jornal Energia e Sustentabilidade, edição de 31 de outubro

Especial Guarani-Kaiowá

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Microgeração, "savoir faire" e apagões

Condomínio com microgeração solar fotovoltaica

Especialistas afirmam que microgeração será maior revolução do setor
"O setor elétrico está prestes a passar pela sua maior revolução, de acordo com o presidente do conselho do Forum Latino Americano de Smart Grid, Cyro Boccuzzi. Com a resolução 482, publicada em abril deste ano, que define prazos para que as distribuidoras formulem regras para conexão de microgeradores à rede, o executivo prevê uma grande mudança no perfil do setor nos próximos cinco anos. Em palestra no XX Seminário de Distribuição de Energia Elétrica, na última quinta-feira, 25 de outubro, no Rio de Janeiro, Bocuzzi afirmou que "a microgeração é uma tecnologia que, no nosso entender e olhando tudo o que tem acontecido no mercado, é considerada um caminho sem volta para as empresas de energia. Como costumo dizer, a 482 marca o início do fim do mercado cativo de energia". Com a microgeração, o caminho da energia não será mais unilateral, mas terá duas vias. O cliente passará a ser então consumidor e gerador, gerando sua própria energia e injetando seu excedente na rede. (Agência CanalEnegia – 26.10.2012)" IFE

Comentário: O lobby das empreiteiras construtoras de barragens vai continuar impedindo o avanço da microgeração no Brasil. Enquanto não conseguirem esgotar os MWs da Amazônia, veja-se a urgência como têm sido tratados os processos de aprovação de inventários de bacias hidrográficas e de viabilidade técnica de projetos hidrelétricos. Some-se o "entusiasmo" da presidente Dilma Rousseff em defender a geração hidrelétrica sem conhecimento (pelo menos aparente) de alternativas genuinamente limpas.

A Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, declarou que será preciso dobrar a geração hidrelétrica até 2050, ignorando completamente o avanço tecnológico do século XXI em alternativas limpas e descentralizadas. Esse poder que emana dos "donos" do mundo que dominam o setor energético tem que ser extinto.

A microgeração já é uma realidade em várias regiões do planeta onde estão sendo utilizados os painéis fotovoltaicos ou microgeradores eólicos em condomínios, clubes, comércio. O Brasil, um campeão de horas de sol, engatinha, se arrastando na esbórnia burocrática do setor elétrico de Sarney/Lobão. (Telma Monteiro)

Inauguração da UHE Estreito - Foto: Jornal Exemplar
Hidrelétrica de Estreito (MA) afeta vida de moradores
"A construção da hidrelétrica de Estreito (MA) forçou ex-moradores de áreas afetadas pela barragem a viver em acampamentos sem eletricidade ou em assentamentos com racionamento de água. Os problemas começaram há cerca de dois anos, quando a usina estava em obras e os moradores tiveram de se retirar. A hidrelétrica afeta 12 municípios na divisa entre o Maranhão e o Tocantins. O principal é Estreito, sede da usina. Lá, a população teme que, no período chuvoso a ser iniciado em dezembro, o rio provoque enchentes por causa da barragem. Na zona rural, a erosão causada pela barragem à beira do rio já derrubou plantações. O Ceste (Consórcio Estreito Energia), responsável pela hidrelétrica, diz que 2.000 famílias afetadas foram removidas e indenizadas. Parte delas, segundo o Ceste, foi reassentada em outros locais. Há outras 900 famílias, porém, que reivindicam indenização. Elas não receberam nada porque não eram donas das terras onde moravam ou não tinham documentos que provavam a posse das áreas. (Folha de São Paulo – 28.10.2012)" IFE 
Comentário: Mesmo assim a presidente Dilma Rousseff foi inaugurar a UHE Estreito, estufando o peito de um orgulho obsceno. Enalteceu os coronéis donos do estado do Maranhão que têm trocado apoio ao governo, por "mensalão" da energia.   

É, Dilma, você ainda não se dignou a prestar solidariedade ao agonizante povo Guarani-Kaiowá, de MS, mas se valeu de holofotes para anunciar a prorrogação da redução do IPI dos automóveis, em evento em São Paulo. Com o mesmo savoir faire ignorou os 12 municípios e suas populações que já sofrem com a usina de Estreito da francesa Tractebel, subsidiária da GDF Suez. (Telma Monteiro)

Mortandade de peixes nas obras da UHE Estreito - Foto: P Negrão
Consórcio Estreito Energia diz que remanejou mais de 500 famílias

"O Ceste (Consórcio Estreito Energia) afirma que aprovou a indenização de 70% das famílias que solicitaram a inclusão no plano de remanejamento de afetados pela hidrelétrica de Estreito. Segundo o consórcio, até mesmo famílias que não eram proprietárias das terras onde moravam foram indenizadas. Em nota, diz que "foram remanejadas mais de 500 famílias não proprietárias". Já o governo federal afirma que existem cerca de 900 famílias no entorno da hidrelétrica que reivindicam indenização por terem sido impactadas e que será realizada "em breve" uma reunião para discutir a situação. Sobre o abastecimento de água, o Ceste informa que a água captada no poço artesiano apresentou características salobras, e que providenciou a instalação de filtros para melhorar suas condições. Os moradores, porém, dizem que a qualidade da água continua ruim. O Ceste afirma aguardar um posicionamento do Ibama para saber se interrompe o fornecimento de água por meio dos caminhões-pipa. (Folha de São Paulo – 28.10.2012)" IFE

Comentário: Quem, em sã consciência socioambiental, ainda consegue acreditar no que diz qualquer um dos consórcios responsáveis pelas hidrelétricas no Brasil? Só mesmo as autoridades do governo federal e o setor elétrico. Tantos ensaios técnicos para construir uma barragem e o Ceste não detectou a água salobra no poço artesiano que deveria abastecer a população? (Telma Monteiro) 

"Apaguinhos e apagões"

"No artigo para O Estado de São Paulo, Celso Ming faz uma dura crítica ao governo Dilma quanto ao investimento em infraestrutura e logística, que estaria aquém do esperado. O autor do artigo destaca a série de apagões do sistema elétrico como exemplo dos grandes problemas na economia. Somente em 2012 foram 65 cortes no fornecimento de energia e por isso o jornalista acredita ser um absurdo o diretor do ONS chamar um desses episódios de “apaguinho”. Ming também critica a postura do governo em relação à Petrobras e ao setor de etanol e açúcar. O autor conclui afirmando que o fornecimento energético passou a atender prioridades políticas. Para ler o texto na íntegra, clique aqui. (GESEL-IE-UFRJ – 29.10.2012)" IFE
Comentário: Posso postar uma centena de fotos que constatam a precariedade e falta de manutenção nos equipamentos das subestações e linhas de transmissão no Brasil. Quem é o Operador Nacional do Sistema (ONS)? É pessoa jurídica de direito privado, sob a forma de associação civil e responsável pela coordenação e controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN), sob a fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Quem são os membros associados e participantes? Não é preciso nenhum esforço para adivinhar que ele é constituído por empresas de geração, transmissão, distribuição e consumidores livres de grande porte. Também participam importadores e exportadores de energia, além do Ministério de Minas e Energia (MME). A lista completa está aqui, confira. (Telma Monteiro) 

Conama veta proposta que exigia estudos integrados para hidrelétricas


"O Conama arquivou proposta de resolução que previa a exigência de realização de estudos integrados de bacias hidrográficas para liberação do licenciamento ambiental de novas usinas. A proposta, apresentada pela organização Ecodata, baseava-se no argumento de que as usinas têm sido liberadas de forma independente, sem considerar o efeito cumulativo que seus reservatórios causam aos rios e à região onde são erguidas. O documento tratava ainda da exigência de realização de estudos de impacto ambiental (EIA/Rima) para todo tipo de aproveitamento hidrelétrico. Hoje, pequenas usinas, com geração inferior a 10 MW, apresentam apenas um relatório ambiental simplificado para obter a liberação do empreendimento. As duas propostas foram arquivadas pelo Conama, que se comprometeu a voltar a discutir o assunto, independentemente do arquivamento. Antes da decisão do conselho a proposta já havia sido refutada pelo Ibama e pelos MMA e MME. (Valor Online – 26.10.2012)" IFE
Comentário: O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) – alguém ainda lembra que ele existe? -  vem mais uma vez provar do que é capaz: de absolutamente nada, quando se trata de bater de frente com grandes interesses econômicos. A reivindicação de estudos integrados de bacias hidrográficas, antes de licenciar um empreendimento hidrelétrico, não é de hoje. O próprio Ministério Público Federal tem feito essa recomendação que, por sinal, é solenemente ignorada.

A proposta feita pela Ecodata não era perfeita e precisava de ajustes, mesmo se fosse boa não teria sucesso naquele (des)ambiente oprimido que se encontra o Conama desde 2004, segundo desabafo de um conselheiro ambientalista. (Telma Monteiro)

sábado, 27 de outubro de 2012

Integração energética e autoritarismo

Lula e Alan García - Imagem Blog da Amazônia
  1. Ministros discutem integração energética Brasil-Peru
"O Ministro Interino de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, e o Ministro de Energia e Minas do Peru, Jorge Tafur, discutiram nesta terça (23) projetos de integração energética entre os dois países, que incluem a viabilização do aproveitamento hidroelétrico de Inambari, com 2.200 MW. A construção da UHE está prevista no acordo sobre integração energética entre os dois países, firmado em 06/2010 e já possui os estudos de engenharia concluídos. Os dois ministros também falaram sobre a exploração e uso do gás natural peruano. Em relação à exploração e ao aproveitamento do gás do campo de Camisea, onde a Petrobras tem participação em cinco blocos, a delegação peruana foi informada que brevemente a estatal brasileira irá apresentar uma declaração de volume descoberto de gás natural. O peruano também manifestou interesse para cooperação técnica em estudos geológicos e minerais em áreas fronteiriças." (Jornal da Energia – 25.10.2012)IFE

Os planos de exploração hidrelétrica, pelo Brasil, dos recursos da Amazônia Andina estão evoluindo rapidamente. Equador, Peru e Bolívia procuram transformar as hidrelétricas em única opção de geração de energia, com apoio técnico de grandes empresas brasileiras do setor privado e estatal - Odebrecht, Eletrobras, entre outras - nos planos de médio e longo prazo, para atender à demanda futura. (Telma Monteiro)


2. Para MME, não existem mais locais para grandes reservatórios 
 "O país não possui mais locais capazes de abrigar grandes reservatórios, segundo o MME. De acordo com Altino Ventura, secretário de Desenvolvimento Energético do Ministério, existem dificuldades de implantação na região amazônica, última fronteira hidrológica do Brasil. Ressaltando que a não construção de usinas com reservatórios estava no planejamento, Ventura lembra que o país fez uma opção pela preservação das regiões onde poderia haver reservatórios, que englobavam terras indígenas e áreas protegidas. Ele ainda frisa que o único empreendimento energético em construção na região do Xingu é o de Belo Monte e os outros aproveitamentos sinalizados não foram à frente, devido à preservação ambiental. O secretário enfatiza que grandes reservatórios só poderiam ser construídos na região Norte do país, porque segundo ele, só lá há potencial hídrico para a construção de reservatórios como os existentes, pujantes a ponto de dar segurança ao sistema." (Agência CanalEnergia – 25.10.2012) IFE

Altino Ventura está chamando a Amazônia de "fronteira hidrológica do Brasil" como se  essa fosse uma característica especial concedida pela Natureza. Não pode haver compatibilidade entre Terras Indígenas, Unidades de Conservação, populações tradicionais e o planejamento do Governo Federal de construir grandes e pequenas hidrelétricas na marra, tenham elas menores ou maiores reservatórios. 

Indígenas Munduruku - Foto: Telma Monteiro
É tanta a urgência em leiloar as usinas planejadas no rio Tapajós, por exemplo, que a Eletrobras chamou os Munduruku e a Funai para uma reunião em Itaituba, em 17 de outubro, para lhes dar uma prensa. Os representantes da Eletrobras queriam negociar no particular, sem a presença de lideranças, a entrada de seus pesquisadores em terras Munduruku para coletar dados para os estudos de viabilidade técnica das usinas do Tapajós. Parece que os Munduruku não gostaram nadinha de dar de cara com estranhos em seu território e sem autorização. A Eletrobras solicitou à Funai que intermediasse as negociações com o fim de dar prosseguimento aos estudos no Tapajós, em terras Munduruku. Pareceu uma carteirada!

A representante da Funai, para acalmar os ânimos, se saiu com uma triste ameaça: se os Munduruku engrossassem com o Estado, o Estado também poderia engrossar com eles e mandar a Força Nacional para garantir a continuidade dos estudos. Indícios de mais um desfecho trágico na história do autoritarismo do governo de Dilma Rousseff sobre os indígenas brasileiros? 

Entre as propostas da Eletrobras estava a de substituir 80 lideranças, que os próprios Munduruku consideram que os representa, por apenas seis que a empresa queria convocar. Mas os Munduruku exigiram da Eletrobras uma reunião ampla com a presença do MPF, com transparência, com todas as lideranças e avisaram em alto e bom tom que não aceitam as usinas no rio sagrado deles. Ali no rio Tapajós habita o deus criador do mundo, Karosakaybu, segundo os Munduruku. 

Karosakaybu é um deus tão poderoso que pode transforma homens em animais e protege os Munduruku da escassez de caça e de pesca. A harmonia com a natureza está assegurada com esse importante protetor. Portanto, nada de hidrelétricas no rio sagrado dos Munduruku! (Telma Monteiro)

domingo, 21 de outubro de 2012

Mais hidrelétricas e termelétricas até 2021 – O futuro que "eles" querem


Obras da usina Santo Antônio, rio Madeira, RO
ESCRITO POR TELMA MONTEIRO[1] para o Correio da Cidadania
SÁBADO, 20 DE OUTUBRO DE 2012

O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDEE) 2021[2] já está disponível para consulta pública e, no que concerne à energia elétrica, ele prevê aumento da demanda com o crescimento alavancado pelo petróleo do Pré-Sal e pelos eventos esportivos de 2014 e 2016. O PDEE 2021 aposta num crescimento do PIB de 4,7% ao ano nos próximos 10 anos, contrariando todos os prognósticos dos economistas. Mas, como esse plano é elaborado apenas por empresas, instituições, associações e autoridades do governo do setor elétrico, não é de espantar que as projeções que dele constam sejam pródigas em pontificar a necessidade de projetos hidrelétricos. 

sábado, 20 de outubro de 2012

Índios Kayabi e Munduruku anunciam que vão resistir contra usinas no Teles Pires


Os índios convidaram procuradores da República do Pará e do Mato Grosso para falar da revolta pela forma como o governo tenta barrar o rio sem consultá-los
 Procuradores da República do Mato Grosso e do Pará estiveram semana passada na Terra Indígena Kayabi, na divisa entre os dois estados, a convite dos índios Kayabi e Munduruku, para debater os projetos de usinas hidrelétricas que afetam suas terras. Em outubro, essas mesmas etnias fizeram reféns sete funcionários da Funai e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) que faziam estudos sobre as hidrelétricas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Mais usinas hidrelétricas na Amazônia


Obras da UHE Santo Antônio, rio Madeira
Telma Monteiro

Em várias oportunidades as autoridades do setor elétrico têm afirmado que as usinas a "fio d'água"[1]  que estão sujeitas aos regimes de cheias e secas cada vez mais acentuados das bacias hidrográficas, devido às mudanças do clima, podem ser um equívoco[2].  Essa mudança de enfoque por parte do governo pode significar uma espécie de antecipação de futuros projetos com reservatórios maiores. Na Amazônia, onde os rios são de planície, a catástrofe seria incalculável.

A moda das grandes hidrelétricas a "fio d'água", no Brasil, começou no projeto da usina hidrelétrica Luiz Carlos Barreto de Carvalho, no rio Grande. Para enfiar goela abaixo da sociedade a insanidade do barramento do rio Madeira, o governo criou a teoria de que as usinas a "fio d'água" solucionariam os impactos ambientais, pois os reservatórios seriam menores. É tão evidente que a tese não se sustentou que, agora, claramente, está se tentando revertê-la. O resultado pode ser ainda mais desastroso, pois além do risco de se construir novas hidrelétricas na Amazônia, há o de que venham a ter reservatórios como os de Balbina e Tucuruí.

Os futuros empreendedores candidatos às concessões agradecem! Maiores reservatórios significam maiores investimentos alavancados com dinheiro público do BNDES, mais impactos que demandam inclusive mais ações de mitigação e compensação socioambientais, mais escavações, mais concreto, mais ferro, turbinas e o pior de tudo, mais desmatamento, mais violação dos direitos humanos e mais pressão sobre unidades de conservação e terras indígenas.
Parte 1 da lista de hidrelétricas planejadas para a região Norte
 Uma rápida passada pelos dados do Relatório de Acompanhamento de Estudos e Projetos de Usinas Hidrelétricas da Aneel, atualizados em junho de 2012, dá a dimensão desse declarado "potencial" hidrelétrico só na Amazônia: 79 projetos hidrelétricos entre grandes e pequenos, nas diversas fases de projeto, na região Norte – 3 no Acre, 10 no Amazonas, 3 no Amapá, 23 no Pará, 13 em Rondônia, 4 em Roraima, 22 no Tocantins, 1 no Maranhão. (inserir tabela 45); 196 projetos hidrelétricos na região Centro-Oeste – 161 no Mato Grosso, 19 em Mato Grosso/Amazonas, 1 em Mato Grosso/Goiás, 4 em Mato Grosso/Mato Grosso do Sul e 1 em Mato Grosso/Pará.  A grande maioria está localizada na Amazônia Legal. 
Parte 1 da lista de hidrelétricas planejadas para a região Centro-Oeste


[1] "Usinas hidrelétricas “a fio d’água” são aquelas que não dispõem de reservatório de água, ou o têm em dimensões menores do que poderiam ter. Optar pela construção de uma usina “a fio d’água” significa optar por não manter um estoque de água que poderia ser acumulado em uma barragem. Esta foi uma opção adotada para a construção da Usina de Belo Monte e parece ser uma tendência a ser adotada em projetos futuros, em especial aqueles localizados na Amazônia, onde se concentra grande potencial hidrelétrico nacional. Aliás, as usinas Santo Antonio e Jirau, já em construção no rio Madeira, são exemplos dessa tendência." http://www.brasil-economia-governo.org.br/2012/03/05/o-que-sao-usinas-hidreletricas-a-fio-d%E2%80%99agua-e-quais-os-custos-inerentes-a-sua-construcao/

sábado, 13 de outubro de 2012

Energia e Sustentabilidade, edição de 13 de outubro

Especial: a ocupação de Belo Monte

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Indígenas e pescadores protestam contra Belo Monte


Por volta das 19h desta segunda-feira (8), cerca de 120 manifestantes indígenas das etnias Xipaia, Kuruaia, Parakanã, Arara do rio Iriri, Juruna, kayapó e Assurini uniram-se aos pescadores, que estão há 24 dias protestando contra o barramento definitivo do rio Xingu (PA), e ocuparam novamente a ensecadeira do canteiro de obras de Pimental para paralisar a construção de Belo Monte.


Vídeos enviados por Andrea Rossi

sábado, 6 de outubro de 2012

Energia e Sustentabilidade, edição de 6 de outubro

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Os três Murús: um caso de (falta de) saúde indígena no Acre


Povo Kaxinawá/Foto: Blog do Accioly
Escrito por Roberta Graf[1]

Caros(as) colegas, aqui vai um breve relato de uma história muito triste, e que exige providências das lideranças de saúde pública, e de saúde indígena no Acre.

Em maio deste ano, Manoel Mateus de Lima (Murú, na língua indígena), 25 anos de idade, da etnia Kaxinawá (Huni Kuin), após ter passado uma semana na Terra Indígena Igarapé do Caucho, próximo à cidade de Tarauacá, AC, na margem direita do Rio Murú, adoeceu gravemente, com sintomas parecidos com derrame (mas não era), foi internado na UTI do Pronto Socorro em Rio Branco já em coma, e por lá ficou cerca de uma semana, teve ligeira melhora, depois foi transferido para a Fundação Hospitalar, saiu do coma mas, após algumas convulsões em dias alternados, e ainda sem os movimentos de corpo nem a fala, morreu, em 28 de maio de 2012, com parada respiratória.

Localização da TI Igarapé do Caucho/Imagem Sigmine/Edição Telma Monteiro
A doença? Provavelmente meningo-encefalite viral. Não era meningite bacteriana, mas também não fizeram os testes dos vírus, que por sinal, tais testes inexistem aqui no estado. 

Mas é dever do sistema de saúde providenciar estes exames com urgência, a serem enviados para laboratórios de outros estados. Nossa suspeita de quem acompanhou o caso: certo grau de negligência médica. Pois faltava o remédio da convulsão, faltava antibiótico, esqueciam de dar medicação às vezes (segundo familiares que acompanharam de perto)... Nenhum médico abraçou a causa deste índio. No sistema de saúde pública (e às vezes, até no particular) passam turnos de revezamento curto de vários médicos diferentes, entre formados e residentes, que vêem dezenas de doentes por dia, por poucos minutos cada um. Quase nenhum infectologista passou por lá. A maioria destes médicos e residentes são de pouca idade e sem experiência na Amazônia - verdade seja dita, os melhores profissionais, em geral, não ficam na Amazônia, pois são mal pagos e não querem ficar longe de sua terra natal.

Foto: Blog do Accioly
A doença, se tiver sido esta mesmo, é gravíssima, 70% dos doentes morrem, e os demais ficam com graves seqüelas, de motoras a mentais (ficam sem movimentos de pernas e braços, sem falar, com baixa atividade mental, etc).

Pois bem, outro caso praticamente idêntico: no dia 20 de agosto de 2012, morreu mais um índio desta mesma Terra Indígena, Valdir Perez Vieira, Murú também, 37 anos de idade, com os mesmos sintomas, tendo permanecido internado, primeiro no Pronto Socorro depois na Fundação Hospitalar, por 16 dias. Também não foi feito exame de qual vírus seria, nem tampouco de meningite. Foram feitos apelos neste sentido, através da minha pessoa, mas não deu certo, passou o tempo, a tomografia então acusou crânio vulnerável à colheita de amostras, nenhuma amostra foi colhida, e o doente morreu. Não se sabe do que ele morreu. Muito provavelmente, meningo-encefalite viral. Mas permanecemos em mistério, sem saber de fato, nos casos dos dois Murús relatados, que mal os fez morrer, afinal.

Cacique Narço / Foto: Blog do Accioly
Qual a fonte: a suspeita maior é que seja de um arbo-vírus que às vezes ocorre na natureza, um parente do vírus da dengue, comum em áreas de desmatamento (desequilíbrio), e transmitido via pernilongo (carapanã) ou carrapatos (artrópodes). Não existe tratamento específico para arbo-vírus (nem remédio, nem vacina), mas existem algumas espécies descritas na literatura, existe como aproximar uma medicação, e até uma vacina, em caso de epidemia. Mas podem também ser outros tipos de vírus (em raras possibilidades), como da herpes, da hepatite C, e até da gripe. Pairou inclusive a preocupação desta doença advir da (duvidosa) vacina da gripe que andam testando em humanos após a panacéia mal-explicada da "gripe suína", da qual, aliás, os indígenas daqui foram dos primeiros a tomá-la (dos primeiros cobaias), por recomendação do Ministério da Saúde.

Há uma suspeita ainda mais remota de ameba, ou bactéria, de carne silvestre mal cozida, por exemplo, mas isto é praticamente impossível, aliás estes índios não têm comido carne de caça nem carne infectada, e eles possuem hábitos higiênicos e saudáveis - os conheço há tempos, só este ano estive lá por quatro vezes. Aliás, Murú Valdir, ironicamente, era agente de saúde desta Terra! Eles não têm comido carne de caça porque está em escassez, porque esta Terra é altamente impactada, é pequena em território, é muito próxima da cidade, da BR-364 recém-pavimentada e de vários vizinhos fazendeiros desmatadores, e sofre caça ilegal de invasores, etc. Eles costumavam comer carne de boi e frango dos açougues da cidade, e algum pouco peixe que pescam no Rio Murú, extremamente impactado pela pesca predatória da piracema na cidade. Apesar dos problemas, essa Terra conta com um povo "ecologicamente guerreiro", possuem diversas ações sócio-ambientais, por meio dos agentes ambientais voluntários formados e apoiados pelo IBAMA e agentes agro-florestais formados e apoiados pela Comissão Pró-Índio (CPI).

Pois bem, resta o grito urgente deste povo e de nós, seus amigos ambientalistas e indigenistas, para que a saúde pública e a saúde indígena melhorem urgentemente no Acre! Já imaginaram se todo aquele povo do Igarapé do Caucho, um povo de 700 pessoas unidas, saudáveis, extremamente organizadas, democráticas entre si, praticantes da cultura ancestral, estudadas (há alguns na pós-graduação e muitos formados) e numa Terra muito linda, preservada, e próspera, agora estiver a mercê da infecção de vírus desconhecidos? 

Mulher Kaxinawá/Foto: Blog do Accioly
Que são transmitidos simplesmente com picada de carapanã? Que estão dando meningo-encefalite mortífera, ou com tanta seqüela que a pessoa fica vegetando a vida toda? Duas mortes em poucos meses, de índios adultos e saudáveis, não é coisa pouca...

Outro "detalhe": os dois Murús mortos (Yushibu os tenha em bom lugar!) eram jovens, extremamente saudáveis e, inclusive, lideranças de seu povo, um era agente de saúde e outro, professor, bastante estimados. Eu conhecia ambos, já há mais de três anos, sou amiga da família de Manoel. Eu estava lá na Terra Indígena quando Valdir Murú saiu rebocado por um carro da FUNASA, no dia 04 de agosto. Quando o vi partir, meu coração bateu forte e, de lá pra cá, eu não dormi mais direito, por sentir que era a mesma doença mortífera do Murú Manoel...

Se estes dois jovens fortes e saudáveis, em pleno vigor físico, profissional e intelectual, foram infectados e tiveram morte rápida, imaginem (Deus-Yushibu nos livre) se este vírus pegar crianças e idosos !!

Agora não há mais o que fazer, não há como investigar os dois casos, os vírus. Aconselho a este povo indígena que capriche ao máximo na prevenção de picadas de carapanã (repelente, mosquiteiro, mangas e calças compridas) e de carrapatos (repelente, evitar andar no capim). E talvez solicitar alguma borrifação de "veneno da SUCAM", destas que se faz em caso de epidemia de malária, por exemplo (cujo vetor também é a carapanã).

Mas principalmente, aconselho a eles, e a todos os lideranças indígenas do Acre, que cobrem muito, mas muito mais atenção à saúde pública, e à saúde indígena.

Os dois Murús se foram, mas há todo um Rio Murú a proteger - com várias aldeias, colônias, fazendas, ribeirinhos...

E torço para que o sistema de saúde pública melhore muito - há muito o que melhorar, ainda que "nosso governador seja médico"...

Agradeço pela atenção, Roberta Graf, outubro de 2012.


[1] Roberta Graf, Dra. em Gestão e Política Ambiental
IBAMA/Acre - Coord. Est. Prog. Agentes Ambientais Voluntários
tels. (68) 3211-1705 / cel. 9217-3234
email: roberta.graf@gmail.com / skype: roberta.graf