quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ferro-gusa: valor desagregado


Gusa em brasa em Açailândia (Foto: Jeremy Bigwood)
Conheça melhor as indústrias que deveriam trazer desenvolvimento à Amazônia, mas acabaram associadas ao desmatamento ilegal e a geração de trabalho escravo

Por Ana Castro

Ele está presente na bicicleta, mas também nos trens, navios e metrôs. Na estrutura da sua casa, no secador de cabelo, na turbina do avião. No arado que prepara a terra para o plantio, no silo que armazena os grãos. Na latinha que conserva o alimento. Na extração de petróleo, na usina hidrelétrica. O aço faz parte da sua vida, em todos os aspectos. Ele representa 90% dos metais consumidos pela população mundial. E o ferro-gusa é essencial para a produção do aço.

O ferro-gusa é, basicamente, uma liga de ferro, resultado da redução do minério de ferro, ao absorver carbono, em um alto-forno. A grande questão em volta da produção de ferro-gusa no Brasil e, em especial, na região de Carajás, é que se usa muito carvão vegetal. O carvão serve, segundo o livro Manual da Siderurgia, de Luiz Antônio Araújo, ao mesmo tempo como combustível para manter os fornos a uma temperatura de 1.500°, necessária para o derretimento do minério de ferro, e como um agente químico para o processo de redução dos óxidos de ferro.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"Quem realiza leilões não pode ser o seu fiscal"


Telma Monteiro

Às vezes é bom a gente fazer uma faxina em gavetas e armários do escritório, depois de alguns anos guardando papeis, escritos, folhetos, notícias. Fiz isso ontem e fiquei surpresa com alguns recortes que resgatei da fogueira.

"Quem realiza leilões não pode ser o seu fiscal". " Você não é juiz de si mesmo". Essas frases foram ditas em abril de 2003, durante o seminário "Agências Reguladoras: Avaliação de Performance e Perspectivas", na Câmara dos Deputados[1]. Quem disse? Dilma Rousseff, então ministra de Minas e Energia do governo Lula.

A ministra se referiu à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Segundo Dilma Roussef a agência estaria incorrendo em conflito de interesses e a independência das agências seria crucial para combater o monopólio. Ela estava se preparando, nessa época, para criar a proposta do Novo Modelo Institucional do Setor Elétrico que virou lei em março de 2004.  

Dilma criou o Novo Modelo do Setor Elétrico e a Aneel continuou com as mesmas atribuições, incorrendo em conflito de interesses.  Dilma assumiu a presidência e a Aneel ficou ainda mais atrelada ao poder do executivo, realizando leilões e fiscalizando-os. Monopólio disfarçado.

Aproveitando que a PF investigou fraude na Agência Nacional de Águas (ANA), seria interessante que estendesse a mesma operação para a Aneel.



[1] Jornal O Estado de S.Paulo – Caderno Economia: Dilma quer afastar Aneel dos leilões - quarta-feira, 30 de abril de 2003 

Estrada de Ferro Carajás

Sujos de carvão


Em Açailândia (MA), a Pública acompanha o resgate de jovens explorados em carvoarias: “Eles consideram isso trabalho escravo, a gente nem sabia”

Por Marina Amaral

Fornos de carvão em Goianésia – PA (Foto: Jeremy Bigwood)
A presença da Polícia Federal no Centro de Defesa da Vida Carmen Bascarán, em Açailândia (MA), é sinal de que mais uma vez a ONG dirigida pelo advogado Antonio Filho, sob ameaça de morte de um fazendeiro local, cumpriu sua missão.

Daquela casa esticada em puxadinhos e jardins partem denúncias acompanhadas de coordenadas geográficas precisas sobre um crime em andamento.

São os que fogem, ou conseguem avisar os parentes, que dão o alerta, repassado sem identificar as fontes ao Grupo Móvel do Ministério do Trabalho, que flagra os que escravizam trabalhadores e resgata as vítimas do trabalho forçado, degradante, perigoso nas fazendas de pecuária e nos fornos de carvão.

Por que a Vale foi eleita a pior empresa do mundo?


Manifestação em Açailândia
 No mesmo ano em que celebrou seu 70º aniversário, a mineradora também recebeu um indesejado prêmio, proposto por movimentos sociais da Amazônia

Por Marina Amaral

Duas visões de mundo se confrontam no 16º andar do edifício localizado no cruzamento da avenida Graça Aranha com a rua Santa Luzia, no centro do Rio de Janeiro. Desta vez, longe das câmaras de TV que meses antes registraram, na mesma esquina, o congestionamento provocado pela concentração de mais de duas mil pessoas que vieram da Cúpula dos Povos – o encontro dos movimentos sociais paralelo à Rio+20 –, trazendo faixas pedindo o veto da presidente Dilma Rousseff ao novo Código Florestal e a paralisação das obras da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, obra emblemática do Plano de Aceleração de Crescimento (PAC) do governo federal que se tornou causa mundial do ativismo ambientalista e de apoio aos indígenas.

Carajás - a terra prometida da Vale


Viagem a Canaã

No Pará, a caminho do “maior projeto da história da Vale”, nossa equipe mostra a região onde tudo “tem, mas não está tendo”: empregos, royalties e desenvolvimento

Por Marina Amaral

Marabá é a porta de entrada da Amazônia que aparece nos cadernos de Economia dos jornais, não nos de Turismo. Essa é a primeira lição para não se decepcionar com a paisagem do hotel, ao lado do aeroporto, em plena rodovia Transamazônica. Entre postos de gasolina e serrarias, à margem da estrada, meia dúzia de hotéis oferecem ar condicionado, internet e um serviço feito por jovens simples metidos em uniformes “internacionais”, que chocam no verão amazônico. A chuva que nos recebeu na manhã de 14 de julho, foi a última da temporada, e tardia.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Nova corrida pelo ouro


Entrevista especial com Telma Monteiro

“A estrutura a ser criada no novo Marco Legal da mineração é exatamente similar ao da energia elétrica, só mudam as siglas”, constata a educadora ambiental.

Confira a entrevista. 
“O mesmo Estado que criou áreas de proteção para preservar os biomas demarcou terras indígenas, discutiu por anos a fio o novo Código Florestal, e agora está criando um monstro na forma de um novo Marco Legal da mineração que vai afetar justamente essas mesmas áreas especiais, explorando seus recursos minerais”. A declaração é de Telma Monteiro, ao criticar a proposta de um novo Código da Mineração. Para ela, a elaboração de um novo código para o setor causa a impressão de que “o Estado, que não tem (ainda) o poder de anular as leis já existentes ou de extingui-las, opta por criar novas leis que, na prática, acabam anulando as que se opõem aos seus projetos de poder”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Energia e Sustentabilidade, edição de 18 de novembro

domingo, 11 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Diálogo Tapajós: tentativa de lavagem cerebral das comunidades

Moradores de Montanha e Mangabal, rio Tapajós
Foto: candidoneto.blogspot.com

Telma Monteiro

 "A reunião foi para fazer uma lavagem cerebral nas pessoas da comunidade".Com essa frase começou minha conversa por telefone com um integrante da comunidade Montanha e Mangabal que se localiza na beira do rio Tapajós.  

Na segunda-feira, 05/11, cerca de 20 pessoas foram chamadas de última hora para uma reunião com um representante da empresa Diálogo Tapajós, contratada pela Eletronorte. Gil Rodrigues conversou com a comunidade das 18h às 20h, na Central de rádio dos garimpeiros, em Itaituba, Pará.

Gil se apresentou como alagoano de origem e agora morador de Itaituba. Disse que tinha sido contratado para promover o diálogo entre a empresa e as comunidades no entorno da planejada hidrelétrica São Luiz do Tapajós, no rio Tapajós. Tentou explicar como seria o projeto e como a empresa "magnânima" iria tratar magnanimamente os ribeirinhos. Apresentou mapas com a localização da hidrelétrica e aproveitou para informar que a Vila Pimental vai desaparecer do mapa.

As pessoas presentes tiveram a grata surpresa de saber que suas vidas vão desaparecer para sempre, submersas nas águas de um reservatório para gerar energia elétrica que só interessa às grandes empresas. Também foram informadas que não deveriam se preocupar, pois tudo seria pensado para o bem delas.

Gil Rodrigues, o arauto da Eletronorte, então, deu a informação que soou como um golpe de misericórdia. As famílias teriam três opções: remoção, indenização ou carta de crédito. Distribuiu um panfletinho com o seguinte texto " Se você vive ou trabalha na área onde poderá ser construída a usina, é seu direito ser cadastrado".  As pessoas também ficaram cientes que nos dias 16 e 17 de novembro poderão exercer seu "direito" de ser cadastradas.
 
Outro ponto que Gil Rodrigues comentou é que na Vila Tapajós, uma das localidades da comunidade Montanha e Mangabal, na beira do alto Tapajós, a água ficará com se fosse tempo de cheia permanente.  Os igarapés serão afetados, principalmente.  Essa comunidade já viveu dias difíceis nos últimos 50 anos e, depois de muita luta, tiveram finalmente reconhecida a propriedade de suas terras, que tinham sido griladas por uma grande empresa.

Um dos presentes argumentou que em 1979 ocorreu a maior cheia que se tem notícia na região e uma barragem com 36 metros de altura vai represar água suficiente para criar uma inundação que ultrapassará aquela cheia.  Gil Rodrigues disse que o lago vai chegar até outra localidade chamada Peruano, também da comunidade Montanha e Mangabal.

Assim como nas demais tentativas de "diálogo" em outros projetos de hidrelétricas como as do Madeira, Belo Monte, Teles Pires, esse interlocutor das empresas ponderou que tudo vai depender das licenças do Ibama. Que o projeto prevê que a madeira toda será retirada e que o modelo de usinas tipo "plataforma" vai impedir os impactos ambientais. Os pesquisadores da CNEC devem continuar o trabalho para elaboração do EIA/RIMA.

Gil Rodrigues marcou mais três reuniões para os dias 7/12 em Itaituba, 09/12 pela manhã na Vila Tapajós e 9/12 pela tarde na localidade Machado, em Montanha e Mangabal.  Seria bom se as pessoas, ao lerem este relato, questionassem esse senhor sobre as falsas promessas que está fazendo para as comunidades do Tapajós. Os telefones de Gil Rodrigues são: (93) 9145 1157 e (93) 8103 5221.

Colaboração de Tairine Rodrigues 

sábado, 3 de novembro de 2012

Mineração assombra índios Yanomami


Terra Indígena Yanomami (em rosa, no centro) e os processos minerários (quadradinhos amarelos)
Índios yanomami rejeitam parecer do Projeto de Lei que pretende regulamentar exploração minerária em suas terras 
Aldeia Watoriki, Barcelos (AM) , 02 de Novembro de 2012 

Por Elaíze Farias, A Crítica
Napë não tem dado trégua aos yanomami. Nem quando tira ouro de forma ilegal nem agora, quando apresenta um documento para legitimar a atividade garimpeira. Napë é “homem branco” na língua yanomami. Se for inimigo, ganha uma sílaba a mais: napëpë.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O índio e o monstro


Índio isolado da TI Tanaru em fuga
 Telma Monteiro

O céu estava escuro, um nublado plúmbeo. Muito calor e umidade e ar abafado traziam um silêncio agonizante na floresta. Um silvo ou assovio ecoou para alertar os animais e espantar a indolência no ar. Humano?

O ser coberto por um negrume que parecia pó de carvão imobilizou-se, mimetizado entre ramos e galhos. Eram sombras suaves brincando na pele brilhante respingada de gotículas. As passadas eram cuidadosas, mas pareciam retumbantes naquele silêncio quebrado pelo som dos gravetos que gemiam ao seu peso. O índio solitário tentava entender os movimentos e sons que vinham do meio da mata qual um animal desconhecido.

O galho estalou no alto da árvore.  Um vulto brilhou contra a luz pálida daquele dia cinza, mostrando dentes reluzentes e forma desconhecida e assustadora. O índio arqueou o pescoço e viu o monstro. E o barulho era indecifrável. Um ranger de ferros e correntes vinha de um grande objeto metálico. Apenas um espectro, sem carne e carcomido pela ferrugem. O som era um rugido estranho e rescindia a óleo de palma.  

A criatura de metal era irreal para aquele ser assustado e já trêmulo. Em posição de defesa, com a longa flecha diante do rosto apontava o inimigo indecifrado. O metal descascado em algumas partes refletia um brilho esmaecido pela luz filtrada por nuvens carregadas.  Mais um passo e a curiosidade suplantou o medo. Um naco da floresta, onde antes havia grandes árvores, tinha desaparecido. Dali ele podia vislumbrar o rio. O seu rio corria furioso para se desvencilhar dos troncos que boiavam criando formas abstratas num caos vociferante.  A água estava tinta de terra vermelha. O medo novamente o dominou e ele acreditou, por um momento, que o rio agonizava, ferido.

Gritos desconhecidos. De repente o céu desabou. Mas não era um trovão e ele esperou e olhou para cima e não sentiu a chuva. E o rimbombar se repetiu e ele levou as mãos aos ouvidos, caiu de joelhos imerso na angústia provocada pelo desconhecido. Mais explosões e pequenas lascas de pedras caíram sobre seu corpo trêmulo. Estaria diante de um deus enfurecido e desgostoso? Teria ele cometido algum ato que o enfurecera? Que oração e oferendas seria preciso para acalmar esse novo deus do mal?

Correu de volta alucinado, percorrendo a margem enlameada do rio, do seu rio que sempre o guiara de volta. O barulho ensurdecedor foi ficando mais longe, não o perseguia. Prestou atenção nos pequenos roedores assustados que passavam  em busca de abrigo. As copas das árvores se agitavam com a fuga das aves e até o peixes pareciam irriquietos. A floresta estava diferente. O seu mundo mudara.

Trôpego alcançou abrigo atrás de uma grande castanheira. Lá em cima uma nuvem escura de fumaça e um cheiro diferente impregnou o ar. Seu coração acelerado se recusou a tomar o ritmo normal. O céu estaria desabando?

O índio entendeu que era o fim do seu mundo. Correu.

NA: Esse texto é uma pequena homenagem ao único indígena, remanescente de uma etnia desconhecida, ameaçado pelo Complexo do Madeira, que se abriga e sobrevive da floresta amazônica, fugindo de qualquer forma de contato com outra cultura. O legado do seu conhecimento ancestral será reconhecido, no futuro, apenas pelos vestígios que deixará.

O Indígena da Terra Tanaru: símbolo da resistência de um povo quase extinto