sexta-feira, 24 de março de 2017

Satélites da Odebrecht

Foto: Rondoniagora
Crônica do dia, por Telma Monteiro

Doente? Rachado? Desfigurado? Combalido? Essas palavras ajudam a definir o Brasil hoje. Temos um Congresso contaminado pela corrupção e aliciado por grandes empresas.

Não estou falando só de grandes empreiteiras não. Lembremos que no rastro dessas empreiteiras vêm empresas fornecedoras de todos os tipos. Empresas satélites que gravitam em torno de grandes empreiteiras. Algumas internacionais, fabricantes de turbinas para hidrelétricas e acessórios, por exemplo.

Seria impossível a Odebrecht superfaturar obras sozinha, sem a cumplicidade de outras empresas. Sobrepreços e superfaturamentos são ferramentas necessárias, em toda a cadeia dos grandes empreendimentos, para alimentar o propinoduto. Tome-se como exemplo o consórcio Norte Energia, responsável pela hidrelétrica de Belo Monte, em construção no rio Xingu. Não daria para manipular os custos totais de R$ 16 bilhões e elevar para R$ 30 bilhões ou mais, sem a ajuda do consórcio construtor liderado pela Odebrecht, de fornecedores de mão de obra e de equipamentos.

Não dá para esquecer da Alstom, apenas para mencionar uma empresa, que tem uma história ligada à Odebrecht e às hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. Ela já está envolvida no escândalo da Lava Jato e é investigada na Suíça. Em 2008, a Alstom “ganhou” o contrato para o fornecimento de equipamentos e das turbinas bulbo para as usinas do Madeira. Essa parceria exitosa avançou junto com as obras das grandes hidrelétricas na Amazônia.

Logo depois, em 2009, a Alstom também “ganhou” o contrato para construir a maior linha de transmissão do mundo com 2.300 quilômetros, que transportaria a energia das usinas do Madeira para o Sudeste. E, em 20011, mais uma vez, a empresa abocanhou novo contrato, para o fornecimento de equipamentos para a hidrelétrica Belo Monte, considerada a terceira maior do mundo. A fiel parceira Odebrecht esteve sempre presente.

Só mencionei, por enquanto, a parceria no setor de construção de hidrelétricas. Tem muito mais. Tem muitos outros satélites. 

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quinta-feira, 9 de março de 2017

Florestas e cidades

Gado apreendido dentro da Flona Jamanxim, durante a operação Boi Pirata. Nelson Feitosa/Ibama

Crônica do dia, por Telma Monteiro

São Paulo é uma grande cidade. Quente. Já foi São Paulo da garoa. O ar parece uma cortina aquecida. Sair da mata para um mar de prédios áridos e tristes, fez-me refletir sobre algumas notícias recentes. Tem políticos que pretendem aprovar no Congresso Nacional um projeto de lei para revisar a criação, por Dilma Rousseff, de cinco unidades de conservação. Outra medida diz respeito à redução da Floresta Nacional do Jamanxim, na região do Tapajós, pela Medida Provisória de dezembro de 2016.

Estão tentando acabar com o pouco ou quase nada que Dilma fez em favor da biodiversidade. Será que o Brasil está fadado a regredir? Vejamos o que não regride: a sujeira da corrupção e das ruas; o descaso com a saúde pública; o descaso com a educação; o descaso com as populações indígenas; o descaso com os biomas brasileiros e com os rios. Só para citar alguns. A lista é muito grande.

Segundo o Imazon, a Flona do Jamanxim já perdeu 57% ou, para ilustrar melhor, o equivalente a duas vezes o tamanho da área metropolitana de São Paulo. Você entendeu agora o porquê de eu ligar a cidade de São Paulo ao despropósito de reduzir as florestas brasileiras?

Reduzir áreas de preservação é como voltar no tempo, para antes da Rio 92. Quem ainda se lembra da Rio 92? E da Agenda 21 Global? O programa de ação, assinado por 179 países, para promover o tal “desenvolvimento sustentável”. Ou “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

A Resolução 44/228 da ONU, que convocou a Conferência RIO-92, reconhece que “pobreza e degradação ambiental se encontram intimamente relacionadas” e, “se há uma síntese possível para este final de século, pode-se caracterizá-la como o esgotamento de um estilo de desenvolvimento que se mostrou ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”.
As “cortadas” nas unidades de conservação estão sendo feitas, que fique claro, sob a mais rigorosa legalidade: as alterações são por emendas parlamentares. Parlamentares que representam o povo no Congresso.

 O Brasil verde está sendo reduzido drasticamente. E todos os dias rasgamos os compromissos da Rio 92. Grandes e pequenas cidades do Brasil refletem o exemplo de São Paulo, incham, sob a desculpa do crescimento, na mesma proporção da destruição das matas que as circundam. Descaso com as populações que buscam moradia decente. Nada é planejado e tudo é improvisado. O uso do solo é administrado como as florestas: há leis para protegê-las, mas não se cumpre.


As consequências estão aí no cotidiano de chuvas torrenciais e localizadas cada vez mais impactantes na vida de milhões de brasileiros. A culpa é de São Pedro?