quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Marina Silva errou em momentos cruciais

Telma Monteiro

Quando lançaram o "Movimento Marina Presidente” aderi de imediato. Marina Silva seria a peça que falta no jogo político a favor do meio ambiente. Fiel à posição assumida de impulso ou ao meu subconsciente que anseia colocar na pauta governista a questão ambiental, assisti ao ato da sua filiação ao Partido Verde. Partido ao qual um dia me filiei e com o qual não tenho mais quase nenhuma, ou melhor, nenhuma afinidade.

As frustrações dos movimentos sociais e dos ambientalistas no governo Lula decorreram, principalmente, das indecisões ou fraquezas de Marina. Ela nos deixou entregues aos leões quando conduziu o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e nos levou ao desespero quando entregou o futuro da Amazônia ao autoritarismo de Dilma Rousseff, mãe do PAC. Para mim, Marina Silva simplesmente desistiu quando deixou o ministério.

E com isso, infelizmente, acabamos nas mãos de Carlos Minc, um ônus que Marina legou para os que acreditavam, ingenuamente, ser possível tratar de desenvolvimento sustentável no governo de Lula. Marina errou em momentos cruciais das nossas lutas ambientais, como quando se dobrou ao lobby dos transgênicos ou quando foi enganada sobre as usinas do Madeira ao acreditar na fábula dos impactos menores meramente pela adoção das famigeradas turbinas bulbo, para citar apenas dois. Em ambos os casos ela e assessores ignoraram as provas produzidas pela sociedade civil e ficaram reféns de um modelo de desenvolvimento perverso instrumentalizado com obras faraônicas.

O PV, de Gabeira a Zequinha Sarney, está nitidamente eufórico em assumir a responsabilidade de receber a Marina presidenciável e vive seus quinze minutos de glória ao resvalar para a história como receptáculo de um mito. Mas o partido ainda não tem estofo para receber a bagagem ética de Chico Mendes.

Marina sonha com a utopia de ajudar a reconstruir o conteúdo programático do PV coagida pelo desafio e pela fé que parece ter por alguns dos seus integrantes. Será difícil reconstruir aquilo que não existe e, nesse caso, a palavra certa seria construir, mas considerado o grau de ingenuidade da senadora podemos esperar apenas um esforço inicial do partido com foco na sustentabilidade e não a construção real de um conteúdo definitivo.

Marina, ministra, cercou-se de assessores que agora a seguiram para o PV, o que eufemisticamente acabou rendendo filiações a um partido desacreditado que se distanciou completamente do seu inspirador europeu. Digo inspirador porque na verdade só usa o mesmo nome evitando acompanhar sua trajetória e seriedade. O Partido Verde brasileiro de hoje, que assumiu Marina, ou melhor, assumido por ela, não tem pedigree, não tem sustância e não tem identidade. Fragmentado pelo Brasil em miríades de alianças questionáveis e dissociado da causa que deveria defender, o grupo dos verdes é um anátema que ambiciona abrigar o mito.

Triste, pois, que, com a Marina e seu discurso emocionante, chegaram também os mesmos já omissos integrantes do seu staff no MMA e causadores de males que um dia a história cobrará. Sob a égide da Marina, moldada por Chico Mendes, assessores facilitaram o caminho para o licenciamento ambiental de empreendimentos que amargarão a vida de gerações futuras, cujos direitos, professa agora a senadora, deveriam ter sido garantidos.

A boa chance vislumbrada pelo Partido Verde de chegar à presidência com Marina, poderá, se mal administrada, catapultar interesses imediatistas que condenarão ecossistemas e povos tradicionais, os mais fragilizados, à derradeira destruição. Marina, ingênua e crédula, mas sonhadora e ética, terá que ter a autoridade, a firmeza e a coragem necessárias para, se eleita presidente, resgatar a oportunidade que deixou passar como ministra. Por sua vez, o Partido Verde tentará, com ela, renascer das cinzas do meio ambiente que nunca defendeu. (TM)